[relatos da vida]

para aqueles que não sabem, trabalho num CEJA – Centro de Educação de Jovens e Adultos. cuido da parte de certificação dos alunos. dito isto, posso contar a seguinte história:

dia desses estava eu tranqüilo trabalhando, quando uma senhora entra na sala e pede informações a respeito de seu certificado. enquanto eu procurava a ficha dela, esta fez uma observação sobre minha queda de cabelo, dizendo que tinha desenvolvido um tratamento revolucionário para o problema, que tinha estudado no exterior, que era médica (a única fitoterapeuta do país!!) e um monte de coisas fascinantes. você deve estar perguntando: “pô, mas se ela já era médica, por que precisava do certificado do ensino médio emitido pelo CEJA?”… pois é, eu também fiz essa pergunta, mentalmente, várias vezes. acho que tantas vezes que começou a ficar perceptível na minha cara, porque ela acabou respondendo (sempre tem um explicação!):

– é que eu fiz o 2o grau no exterior, depois fiz faculdade fora também e, quando voltei pro Brasil, meus diplomas não foram reconhecidos… por isso fiz o ensino médio novamente, pelo CEJA, para depois tentar a validação do meu diploma de medicina…

não entendeu nada? então concordamos mais uma vez.

enfim, a deixei pensando que tinha engolido aquela história toda e disse que levaria alguns dias para o certificado ficar pronto. ela disse que voltaria depois daquele prazo e que, como agradecimento pela minha atenção, traria o tal remédio do tratamento que tinha desenvolvido.

teeeeeempos depois, quando eu já tinha esquecido da tal mulher, ela volta. vou ao arquivo, pego o certificado e entrego a ela. eis que então a senhora tira de dentro da bolsa um frasco, desses de remédio mesmo, sem rótulo ou coisa alguma que identificasse o que havia em seu interior. explicou como eu deveria aplicar aquilo e tudo mais. as outras pessoas, que trabalham na mesma sala, foram se interessando pelo papo da mulher e começaram a fazer perguntas sobre aquele método e sobre as dietas que ela – também – tinha inventado. para encurtar a história, acabou que ela deixou o telefone do CONSULTÓRIO dela pra todo mundo e foi embora. quando saiu da sala, fiz cara de surpreso para o restante da turma. perguntaram “que cara é essa???” e eu respondi:

– vocês estão doidos? não perceberam que a mulher é meio fora? que papo é esse de de ter se formado no exterior? qualé? será que ela acha mesmo que eu vou passar essa coisa na minha cabeça, sem ter a menor idéia do que tem dentro?

[moça que trabalha comigo]
– ué… se você não vai usar, dá pra mim que o meu marido usa!

– não! não vou te dar porque a mulher é doida. deixa isso aqui! – e coloquei o frasco do lado do monitor.

nesta semana, então, recebemos a notícia, através dos telejornais locais, de que uma mulher havia sido presa por tentar obter a carteira do CRM apresentando um diploma de medicina falsificado. descobriram pelo carimbo do responsável, que apresentava um nome que nunca tinha sido ouvido na instituição que, supostamente, havia emitido o tal diploma. adivinham quem é a mulher? tcharaaaaam!!

na verdade, minhas desconfianças aumentaram bastante quando a vi distribuindo panfletinhos de igreja em um terminal rodoviário, mas nunca achei que ela chegaria a esse ponto.

ontem um policial civil esteve no CEJA, perguntando se aquele certificado que ele tinha nas mãos era autêntico. bom, pelo menos sabemos que o ensino médio ela cursou mesmo.

hoje ela pagou a fiança e saiu da cadeia.

estou com medo de dormir. acho que ela vem puxar o meu pé.

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